Entrevista a Caio Lima, militante do Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas

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Lina: Caio, pra você o que é o Comitê Popular?

 

Caio: Eu considero que é um espaço de articulação de movimentos sociais, de partidos, sindicatos, da academia, de coletivos que não são ligados a partidos, e pessoas, eu entrei como uma pessoa que queria uma transformação na sociedade. Lá a gente faz um estudo –o Comitê do Rio tem um forte traço da academia–, um estudo sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro e no Brasil, mas principalmente atua como tentativa de resistência frente a esses impactos. Infelizmente a gente está num momento ainda de resistir, acho que é isso que a gente faz principalmente. E resistência principalmente na questão da moradia, você já teve ter percebido.

 

Lina: E porque principalmente na questão da moradia?

Caio: Os megaeventos trazem impactos para toda a classe trabalhadora, para todos os trabalhadores: na questão de endividamento público, na questão do modelo de cidade que está sendo gestado, na questão da elitização da cidade, na especulação imobiliária, que atinge também a classe média, mas a classe trabalhadora tem menos condições materiais e está sofrendo as maiores violações, a questão da moradia com as remoções, como já foram removidas 20.000 famílias pelos dados da própria prefeitura, dados já antigos e com certeza subestimados. Então daria entre 60, 80 podendo chegar até 100.000 mil pessoas removidas das suas casas, de comunidades que estavam próximas aos projetos de cidade empreendedora, cidade-mercadoria e acho que a gente faz esse trabalho importante porque hoje a crítica à Copa do Mundo e aos megaeventos está espalhada pela sociedade, acho que não tem ninguém que fale que seja a favor da Copa, que ela foi bem feita no Brasil. Mas a crítica geralmente é um pouco pequeno-burguesa, principalmente a crítica da mídia é que os aeroportos e os estádios não ficaram prontos, os altos gastos públicos. E acho que é importante realçar a questão das classes menos favorecidas que estão sendo atingidas na pele pela Copa do Mundo e os megaeventos.

 

 

Lina: E como se conformou o Comitê Popular?

 

Caio: Eu não estava na origem, mas sei que tem a experiência do fórum social do PAN de 2007 (Jogos Pan Americanos de 2007 sediados no Rio de Janeiro) que já teve uma organização e participação de pessoas que participam hoje do Comitê e que estavam lá naquele momento. O fórum conseguiu algumas vitórias e algumas resistências, não todas as que a gente queria; e também é fruto da experiência da Conferencia das Cidades, acho que foi isso, que de lá saiu, teve um evento da ONU e foi realizado um evento paralelo que reuniu milhares de pessoas e de lá começou a se formar o Comitê como ele atua até hoje. O Comitê do Rio é germe dessas duas experiências. E isso é importante enfatizar, porque tem gente que fala que a gente está reclamando da Copa só agora, e que deveríamos estar reclamando há sete anos, mas a gente estava! Mas não tinha tanta visibilidade porque os processos que se formaram não estavam tão escancarados. Aí as próprias comunidades não sabiam, não estavam sofrendo na pele e quando passam a sofrer é muito frequente, a gente tem o acompanhamento de algumas comunidades, mas é frequente vir uma comunidade que percebe que está sofrendo um processo de remoção e vem na reunião pra tentar sa
ber o que tem que fazer, infelizmente tem casos que já estão na ponta, que já estão derrubando casa, e infelizmente a nossa atuação é muito mais de tentar garantir um pouco mais de direitos, fazer valer as indenizações, essas coisas, não dá pra fazer o processo todo de união da comunidade para resistir. O nosso trabalho nesse caso pelo menos freia esse processo. Por exemplo, na Vila Autódromo, comunidade que está resistindo bravamente, o projeto de realocação da Vila Autódromo mesmo não se enquadrando nas recomendações da ONU que lista como deve ser feito o processo de realocação, é disparado o melhor do Rio de Janeiro e não é do nada isso, mesmo os moradores que quiseram sair estão se beneficiando da luta daqueles que estão resistindo aos megaeventos e à especulação imobiliária que está associada (A Vila Autódromo é uma das comunidades nas quais o Comitê trabalha e assessora há algum tempo).

 

Lina: Como funciona a atuação de vocês com a demanda de novas comunidades, não falando da Vila Autódromo que já trabalha há tempos com vocês?

 

Caio: Ela já era assediada há mais de 20 anos, então…

 

Lina: Mas existem comunidades menores, ou que não são tão visibilizadas…elas chegam até vocês e a partir daí vocês podem desenvolver ou não uma ação?

 

Caio: A gente sempre procura dar uma assistência, já que tem muita gente do Comitê com experiência em mobilização popular, em união e em meios e mecanismos que conseguem dar visibilidade e tentar reduzir as violações dos direitos humanos. Estamos sempre abertos, mas também não pode partir só do Comitê, a comunidade tem que estar aberta pra receber nosso auxílio, eu acho que nesse sentido a gente conseguiu algumas melhorias felizmente de pessoas que foram removidas e perderam as suas casas, mas que pela atuação do Comitê conseguimos aumentar os valores das indenizações que já é uma melhora.

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Lina: Eu percebi nas reuniões a presença de poucas lideranças comunitárias, ou seja, vi mais a presença de outras organizações da sociedade civil, como ONG’s, sindicatos, etc. Você acha que falta um pouco de protagonismo das próprias comunidades? Ou seja, falta um engajamento delas de buscarem este espaço? Como é a relação com as comunidades?

 

Caio: É uma relação aberta, franca. Acho que a gente tem que colocar no contexto de 20 anos de afluxo no movimento popular. A gente vive treze anos de governos petistas que foram vistos como uma esperança para a classe trabalhadora, mas que a classe trabalhadora não foi chamada uma vez para tentar impedir alguma coisa, participar contra os interesses das grandes corporações, empreiteiras, enfim. Então a gente está nesse contexto. Também o contexto de violência que não dá pra ser descartado. A maioria é contra as UPP’s (Unidade de Polícia Pacificadora) mas o domínio do tráfico também era difícil e ainda tem as milícias. Então é difícil conseguir o apoio dos moradores frequentemente nas reuniões, mas a gente faz visitas às comunidades. Uma das últimas que a gente fez foi uma lá na Vila União de Curicica (Zona Oeste da cidade), a gente foi num sábado de manhã pra lá, rodamos a comunidade toda, e não me lembro o número exato, mas eram mais de 400 casas que estavam ameaçadas de remoção e rodamos a comunidade chamando pra uma reunião na frente do hospital, um lugar que tinha ali um espaço pra gente fazer reunião. Tinha mais de 120 pessoas da comunidade que foram lá pra ouvir, pra saber o que tinha que fazer. Acho que seria importante fazer mais isso porque é difícil trazer os moradores às nossas reuniões (que geralmente são realizadas no centro da cidade do Rio de Janeiro), porque o morador trabalha pra caramba, o trânsito no Rio não ajuda, é difícil atrair os moradores atingidos, mas quando a gente vai à comunidade tem uma receptividade boa. A princípio, geralmente tem uma confusão, porque acham que podemos ser agentes da prefeitura, mas quando vê que não somos, é legal. Tem também outra coisa que desmobiliza que é a própria prefeitura atuando por vários mecanismos, fomentando desavenças e conflitos na comunidade. A questão da associação dos moradores é muito frequente, muito frequente. Nessa reunião, por exemplo, tinha representante da associação que estava lá pra ver, que não queria a nossa presença ali, não queria nada disso. E também agora com o caso da Vila Autódromo que a Defensoria Pública está atuando na defesa da prefeitura e contra os moradores, dando uma liminar que feria a própria liminar da Defensoria. É difícil, mas acho que é importante outros colaboradores estarem mais presentes nas comunidades porque tem uma outra realidade que não estando lá é difícil saber.

 

Lina: As comunidades já conhecem o Comitê? Quando vocês se apresentam como o Comitê Popular da Copa e Olimpíadas eles já conhecem vocês, o trabalho de vocês?

 

Caio: Acho que sim, mas nem todas. É difícil chegar informação, mas quando a gente explica aí passa a ter um respaldo maior, mas é um trabalho de resistência mesmo que tenta ser invisibilizado muito frequentemente. A grande mídia não fala da gente. E quando fala nos vincula sempre a um partido político. A tentativa é sempre de invizibilizar as lutas, mas acho que a gente está conseguindo. A gente não só o Comitê, mas o processo que a gente está vivendo no Brasil, as mobilizações. Acho que a expectativa é de melhoras nesse campo.

 

Lina: E quais são as organizações que participam mais ativamente do Comitê?

 

Caio: A participação é bastante flutuante. Tem gente que vai sempre, mas também a gente recebe várias outras pessoas que variam. O IPPUR/UFRJ está presente, representando a Academia, o movimento popular mais representativo é a CMP (Central dos Movimentos Populares), também é super importante o apoio da ONG Justiça Global, temos representantes de sindicatos, o SEPE (Sindicatos dos Educadores) –que atualmente está vindo menos por estar em processo de greve, de luta–, temos aliança com o sindicato dos jornalistas (ABI), e partidos de esquerda que vão frequentemente e que estão com a gente.

 

Lina: E você, Caio, como e porque você entrou no Comité?

 

Caio: A minha historia é bastante recente. Eu estou mais ou menos desde o final de 2012, eu sou mais o perfil acadêmico e quando eu vi que não bastava só estudar, que tinha que ir também para a práxis, eu entrei no Comitê e essa é a minha experiência militante. Estou bem satisfeito, acho que a gente está cumprindo um papel importante e quando acabar o Comitê espero ir pra outro lugar porque não dá pra viver nesse mundo, desse jeito não dá.

 

Lina: Mas a previsão de funcionamento do Comitê é até 2016, né?

 

Caio: Sim, no mínimo. Não sei se vai ter alguma coisa depois, acho que é importante.  Vai acabar a Copa, mas não vão acabar os processos de violações de direitos. Tem que se fazer um estudo sobre a resistência aos megaeventos, mas não sei se cabe a nós ou a outros atores. Fazer um estudo do legado desses megaeventos, as dívidas públicas contraídas, a utilização dos estádios. Então não sei se será a gente, mas que terá que haver um estudo e cobrar dos responsáveis, isso com certeza.

 

Lina: E para finalizar, claro que não se fala muito, e também tenho visto com outras organizações, moradores de favelas e comunidades que não se utiliza muito explicitamente o conceito/termo de “direito à cidade”, mas finalmente você acha que nas ações de vocês está sempre implícita a noção do direito à cidade?

 

Caio: Com certeza está. Acho que é na questão da resistência, porque estamos no momento de “não” às violações de direitos, mas o que está por trás é o direito à cidade, que seria o “sim”. Trabalhamos com um outro jeito de pensar a cidade e que no Rio está sendo fortemente afetado por um projeto de cidade mercadoria que infelizmente aqui está mais acelerado que em outras cidades do Brasil, pelo menos essa é a minha visão, e acho que o Rio é hoje um laboratório para outras cidades. Com certeza quando a gente tiver capacidade, ainda não é o momento, quando tiver capacidade vai ser colocado, não só a resistência, mas também a oposição à cidade de mercado e em favor de uma cidade de direitos, a cidade pros trabalhadores, que não vise só o lucro, mas sim a vida das pessoas. Acho que isso está sempre por trás.

Por Lina Magalhães

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